
Yours truly: Mari Portela
Data de Fabricação: meados de 1986
O que pensa da vida:I'm still working on that
O que faz da vida:letras,tradução&intérprete; francês; besteiras
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Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Nasceu uma bolinha cinza de pelos. Enroladinha, perto da mãe, mamou e a bolinha cresceu. Desde cedo, era uma gata nômade. Enquanto que seus irmãos e irmãs gostavam de dormir do lado direito da mãe, ela já gostava mais do esquerdo. Quando foi morar com uma moça bonita chamada Din, ganhou o nome de Amanda e se viu sozinha num quintal enorme para explorar. Subia na pata-de-vaca, na amoreira, se escondia atrás dos arbustos, dava o bote em sabiás e bem-te-vis. Caçava ratinhos, insetos. Com ela, moravam duas crianças: Marianna e Gabriel, e descansava no colo deles, na rede, enquanto sentia o cheiro das mexericas que a menina comia.
Conheceu um gato garboso e se encantou com ele. Alguns meses depois, teve 8 filhos lindos, seu orgulho. E por mais que Din a colocasse coma cria numa almofada fora da casa, ela pulava a janela do quarto e alojava cada filhote na cama da dona.
Com o tempo, cada filhote seguiu seu curso, pois, a exemplo da mãe, um lugar só não era bom para eles.
Como toda boa gata nômade, não reclamou quando se mudou da grande casa em São Paulo pra morar nos campos de São Pedro da Serra. Pulava janelas, lambia manteigueiras, roubava ovos dos ninhos, corria e dormia embaixo de árvores cheias de flores e frutas. Ao sentar-se no colo das gentes humanas, amaciava bem com as unhas e depois se deitava. Mas nunca por muito tempo.
Mudou-se sua dona então para Nova Friburgo. E Amanda corria, pulava, dormia em sofás e almofadas fofas, cheirava as flores e se aconchegava em casa buraquinho. Arrumou uma amiga grande e preta, uma labradora chamada Laila. Como todo gato, Amanda desprezava um pouco a raça canina, tão boba e dependente, mas era doce com a pobrezinha.
Quando Din resolveu ir finalmente para Florianópolis, achou melhor que Amanda voltasse para São Paulo, talvez a praia fosse demais para uma gata tão desbravadora. Amanda não gostou muito da idéia, tinha curiosidade de ver o mar. Mas para São Paulo foi, para morar com Marianna. E lembrou-se da infância que passaram juntas e as alegrias de quintal que dividiram quando ambas era crianças. E muitas aventuras viveram as duas.
Muito carinho, muitos chinelos onde enfiar o focinho, muitos passarinhos de presente, muitos insetos, manteiga, patê, fitas balançando, colos amaciados, músicas, e sempre um novo lugar onde se esconder.
E o tempo passou. Amanda foi ficando mais velhinha, as patas já não queriam correr muito, nem pular. Mas os lugares inexplorados ainda eram muitos. Um belo dia então, Amanda achou que talvez fosse a hora de conhecer um lugar longe, bem longe. Quando Marianna explicou que suas patas estavam fracas porque ela estava doentinha, Amanda despediu-se de todos e, com tranqüilidade, fechou os olhos.
Gatas nômades sempre acham algum outro lugarzinho para explorar, e tenho certeza que nesse exato momento ela está com o focinho enfiado em algum chinelo novo.
Who knows how long I've loved you
You know I love you still
Will I wait a lonely life time
If you want me to I will
For if I ever saw you
I didn't catch your name
But it never really mattered
I will always feel the same
Love you forever and forever
Love you with all my heart
Love you whenever we're together
Love you when we're apart
And when at last I find you
Your song will fill the air
Sing it loud so I can hear you
Make it easy to be near you
For the things you do endear you to me
And you know I will
I will
Mari comeu uma bolinha verde às 1:53 AM
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supimps!!!
Domingo, Dezembro 02, 2007
Ela sai, tranca a porta. Fecha o sobretudo preto. No hall do prédio velho e triste com cheiro de naftalina, ela espera o elevador enquanto olha os sapatos vermelhos. Naquele frio, o cobertor chamava de volta para o apartamento.
Rua. Sujeira, cheiro de frango assando, mofo do sebo da esquina. O sapato toc-toc no asfalto. Buzina. Morar num bairro pobre é triste e sujo e bonito. Olha aquele mendigo dormindo... Comeu marmita da Igreja. Ponto de ônibus, ela se aconchega do vento dentro do sobretudo. Um casal briga baixinho: ela negra, ele branco. Uma senhora com sacolas respira fundo. Passam ônibus, um, dois, cinco, nenhum é o dela.
Senta na janela. Abre um livro, mas o sono bate. Melhor observar. O rapaz ao seu lado batuca um samba que só ele escuta em fones minúsculos. Um homem finge dormir no banco preferencial assim que uma grávida entra no ônibus. O cobrador deixa uma senhora que fala sozinha descer sem pagar a passagem. Cada um se isola a seu modo.
Cidade grande e perdida, as pessoas na rua passam, casacos, gorros, luvas, as janelas dos carros embaçam com a fina chuva que cai mansamente. Suja e brilhante, cheiros podres e doces, shampoo e lixo.
Rua, chuva. Ela não se apressa, deixa a água encharcar seus cabelos. Os sapatos toc-splash-toc no asfalto molhado. Cada passo uma sentença. Ela chega à porta descascada e toca a campainha. Ele abre. Ela entra.
%loneliness%
Mari comeu uma bolinha verde às 2:24 PM
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supimps!!!